Resenha: O Doador - Lois Lowry

11:01:00

O Doador
Edição de 2009, Editora Sextante

Edição de 2014, Selo Arqueiro


Sinopse: Ganhadora de vários prêmios, Lois Lowry constrói um mundo aparentemente ideal onde não existe dor, desigualdade, guerra nem qualquer tipo de conflito. Por outro lado, também não existe amor, desejo ou alegria genuína.

Os habitantes da pequena comunidade, satisfeitos com suas vidas ordenadas, pacatas e estáveis, conhecem apenas o agora - o passado e todas as lembranças do antigo mundo foram apagados de suas mentes.
Uma única pessoa é encarregada de ser o guardião dessas memórias, com o objetivo de proteger o povo do sofrimento e, ao mesmo tempo, ter a sabedoria necessária para orientar os dirigentes da sociedade em momentos difíceis.
Aos 12 anos, idade em que toda criança é designada à profissão que irá seguir, Jonas recebe a honra de se tornar o próximo guardião. Ele é avisado de que precisará passar por um treinamento difícil, que exigirá coragem, disciplina e muita força, mas não faz ideia de que seu mundo nunca mais será o mesmo.
Orientado pelo velho Doador, Jonas descobre pouco a pouco o universo extraordinário que lhe fora roubado. Como uma névoa que vai se dissipando, a terrível realidade por trás daquela utopia começa a se revelar.
Premiado com a Medalha John Newbery por sua significativa contribuição à literatura juvenil, este livro tem a rara virtude de contar uma história cheia de suspense, envolver os leitores no drama de seu personagem central e provocar profundas reflexões em pessoas de todas as idades.

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Resenha: Acho que primeiramente eu deveria agradecer imensamente a pessoa que me indicou o livro: Ana, uma das melhores bibliotecárias que eu já conheci em todos os tempos. Ela não era apenas mais uma funcionária na escola onde cursei o ensino médio, ela também era uma grande amiga, conselheira e muitas vezes uma segunda mãezona. Obrigado pelas chamadas de atenção Ana. 

Na época em que eu li o livro, eu era muito novo e ainda não conseguia compreender  a dimensão do assunto. O livro se trata de uma Distopia onde dentro da história os personagens estão convictos de que vivem em uma excelente Utopia, bem construída e bastante hierarquizada. Mas na verdade existe vários pontos falhos nesse sistema que deveria ser de primeira ponta.

CUIDADO: O texto a seguir pode conter alguns spoilers

O livro gira em torno dessa pequena e pacata cidade onde os moradores levam uma vida plena, assim dizer. Tudo o que conhecem é o agora, pois não precisam se preocupar com o futuro, uma vez que ele esta assegurado pelo governo que rege esta cidade.
Todas as crianças quando completam 12 anos são selecionadas, depois de alguns testes de aptidão, e mandadas para seus respectivos trabalhos e mentores, onde trabalharam até o fim de sua vida, contribuindo com uma cidade melhor e para o bem geral da comunidade. Estas mesmas crianças quando crescem constituem uma família que é pré-determinada exclusivamente pelo governo, isso mesmo. Existe uma seleção, não como a da divisão de tarefas, mas uma seleção matrimonial onde o casal entra em um acordo mútuo para que formem uma família. Esse casal, alguns anos depois, podem optar por terem um ou dois filhos, filhos que também são selecionados pelo governo e entregues ao respectivo casal, uma vez que não existe o amor entre os mesmos e tampouco a troca de afeto físico, permita-me explicar. Quando a criança começa a desenvolver desejos e curiosidades sexuais na adolescência, ele já é obrigado a tomar uma dose de um remédio específico que inibe esses desejos carnais. 

Nós podemos ler e analisar esse livro com dois pontos de vista, e pode ser que alguns de vocês não concordem comigo, mas esse sistema hierárquico feito pelo governo tem seus lados positivos. Nessa cidade idealizada por Lowry não existe o que seria o mal. Não existe pobreza, miséria, analfabetismo, rebeliões, questionamentos e afins. A população nunca foi mais unida do que agora. As pessoas se respeitam mutuamente e confiam umas nas outras. A poluição também não existe mais, pois o único meio de transporte conhecido pelo povo é a bicicleta. O povo é ensinado desde cedo a preservar o meio ambiente e o meio selvagem ao seu redor. Isso é o que nossa sociedade hoje necessita. Mas nós começamos a analisar o contexto geral da história com outros olhos quando o protagonista do livro é selecionado para seu trabalho dentro da sociedade, e é ai que o livro de fato começa.

O livro é narrado em primeira pessoa pelo Jonas, uma garoto de 12 anos que esta começando a sentir desejos e curiosidades, e como se não bastasse ainda esta preocupado com "a seleção", um temor que, segundo seu pai, não é necessário. Mas Jonas é uma criança meio diferente das demais, ele se "questiona". Jonas também não foi bem em nenhuma prova de aptidão e isso começa a lhe assustar imensamente. Então, quando seus amigos são enviados para serem médicos, tratadores, jardineiros, pilotos e outras coisas mais, ele é enviado para ser o novo Guardião. 
O Guardião sempre foi considerado pela população da cidade como "diferente", nada mais do que isso, afinal, a população desconhece quaisquer outros termos pejorativos mais abrangentes do que esse. O Guardião sempre viveu recluso de tudo e de todos, e Jonas temia descobrir o motivo.

Quando um novo Guardião é selecionado, seu antecessor passa a ser O Doador, personagem homônimo do livro. Esse Doador retem todas as informações, lembranças, experiências de vida e tudo mais o que diz respeito ao mundo lá fora, depois dos grandes muros que separam a cidade do que quer que esteja do outro lado. Esse Doador é a pessoa que impede de que o antigo mundo seja completamente perdido, além de ajudar o conselho com dicas e informações preciosas das experiencias que a humanidade teve ao longo de todo o tempo. Ele é a única pessoa que sabe que aquilo que deveria ser uma maravilhosa Utopia, na realidade é a pior prisão que alguém poderia imaginar.

Conforme Jonas vai aprendendo mais e mais sobre aquele maravilhoso e estonteante mundo, ao mesmo tempo ele vai se tornando uma pessoa mais fechada para com a sociedade e seus pais. Ele também começou a se fechar em relação com seus amigos e conhecidos, pois, pode não fazer sentido para vocês, ele passou a ter sentimentos. Ele sentia dor, felicidade, tristeza, amor, êxtase, desejos, gratidão, angustia, desespero e, algo que ele não gostou nada em ter conhecido, ódio. 

Como Guardião, Jonas é obrigado a conhecer com mais afinco as outras disciplinas e trabalhos da sociedade onde vive e, uma coisa em particular lhe deixou completamente chocado. Seu pai, que era criador/pedagogo, para todos os efeitos, responsável pelo crescimento sadio e pelo desenvolvimento das crianças, aquele homem que Jonas tanto admirava, na sua nova concepção se tornou um dos maiores monstros que ele poderia imaginar, e é ai que o nosso Plot Twist começa.

O livro nos mostra, verdadeiramente, como nós agimos em nossa sociedade, nos mostra coisas que, eu particularmente, fiquei chocado em descobrir. Ele nos faz parar e pensar em como estamos agindo e lidando com a sociedade, nos faz parar e pensar se o que estamos fazendo agora vai ser refletido futuramente, onde, como e quando. Este livro é um verdadeiro tapa na cara da sociedade por "n" motivos, o que é muito bom, pois o livro esta se popularizando com o tempo. 
Eu ri, eu chorei, me decepcionei e me rebelei juntamente com Jonas em meio a essa aventura de tirar o fôlego. Não estarei sendo exagerado ao dizer que este livro deveria ser lido por todos, que ele deveria ser um material obrigatória em nossas vidas e lido e relido várias e várias vezes antes de morrer-mos. Eu li e reli esse livro outras duas vezes antes de poder resenha-lo, e cada uma destas vezes, eu vi coisas que não havia visto na leitura anterior, lições de moral e de vida que eu certamente levarei pelo resto de minha vida. Pois se alguma coisa precisa mudar o mundo, essa coisa somos nós. O livro só esta aqui para mudar-nos.


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4 comentários

  1. Ótima resenha, nunca tinha ouvido falar desse filme, mas parece legal.

    Beijos, @_RayPereira
    http://porredelivros.blogspot.com.br/

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    1. Oi Ray, muito obrigado ^^, mas na realidade é um livro, e o que é legal, é que os direitos do mesmo já foram comprados para a adaptação e deve chegar nos cinemas em 2014. Eu vou fazer um post sobre o filme também. Beijos...

      Att,
      V. I. Neves

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  2. Oieeee, confundi os posts e me atrapalhei. Cara esse livro é bem profundo. Eu li sua resenha e me tirou o folego. A Ana so te dava dica top mesmo hein. Queria uma Ana dessa quando eu tvaa na escola. Na verdade queria uma biblioteca quando tava na escola. :(

    Beijos, @_RayPereira
    http://porredelivros.blogspot.com.br/

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    1. rs' imagina Ray, acontece. Sim, sim. Ana foi meio que uma fada madrinha. Uma pena que tenha perdido o contato com ela após minha saída da escola. Acho que valeria muito a pena se investisse nesta aquisição.

      Att,
      V. I. Neves

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